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Dr. Fernando Salvetti ValenteClínica Médica

Texto · 05 de novembro de 2026

Hemograma e exames de rotina: como ler sem se assustar

O resultado chega pelo aplicativo do laboratório numa sexta à noite. Trinta itens, três com asterisco. O fim de semana vai embora pesquisando cada um deles. Na segunda, no consultório, a maioria dessas alterações não quer dizer nada, e entender o motivo ajuda a passar o próximo fim de semana em paz.

Por que quase sempre aparece algum asterisco

A faixa de referência que vem ao lado de cada resultado é construída a partir de pessoas saudáveis. O laboratório mede um grupo grande de gente sem doença e define como “normal” o intervalo onde ficam os 95% do meio. Por definição, 5% das pessoas saudáveis ficam fora da faixa em cada exame.

Agora faça a conta com vários exames. Com 20 itens, a chance de uma pessoa saudável ter pelo menos um valor fora da faixa fica perto de dois em três, pela conta aproximada. O asterisco quer dizer “fora do intervalo onde está a maioria”. Ele não quer dizer “doente”.

O que olho primeiro

Antes do número, olho três coisas. Se você tem algum sintoma que combine com a alteração. Quanto o valor está fora: um pouco acima do limite é diferente de três vezes acima. E como estava nos exames anteriores, que costumam ser mais úteis que qualquer resultado isolado. Por isso peço que tragam os exames antigos, como explico no texto sobre o que levar na primeira consulta.

Alterações que costumam não ser doença

Neutrófilos um pouco baixos

Os neutrófilos são um tipo de glóbulo branco. Muitas pessoas de ascendência africana têm, por uma característica genética, neutrófilos naturalmente mais baixos, sem nenhum aumento de infecções. Num estudo publicado em 2023 na revista Blood Advances, dois terços dos adultos negros avaliados tinham essa característica. Para elas, a faixa do laboratório simplesmente não serve.

Ferritina alta

Ferritina alta assusta porque parece excesso de ferro, mas na maioria das vezes reflete outra coisa: inflamação, consumo de álcool ou alterações do metabolismo, como a gordura no fígado. O exame que ajuda a separar uma situação da outra é a saturação de transferrina.

Enzimas do fígado (TGO e TGP) levemente altas

As causas mais comuns são gordura no fígado, álcool, alguns remédios e suplementos e até exercício pesado nos dias anteriores ao exame.

Glicose e colesterol um pouco acima

Pedem atenção, sem pressa. Eles entram numa conta maior de risco, como explico nos textos sobre pré-diabetes e colesterol.

Alterações que merecem atenção

Algumas alterações pedem conversa logo, mesmo sem sintoma: hemoglobina caindo de um exame para o outro, principalmente em homens e em mulheres que já não menstruam; plaquetas muito baixas; creatinina subindo; sódio ou potássio muito fora da faixa. Valores muito alterados costumam ser comunicados pelo próprio laboratório ao médico ou a você.

Se você tem um resultado que não entende, a melhor pergunta para levar ao médico é: isso muda alguma coisa no que vamos fazer? Muitas vezes a resposta é não, e isso também é uma resposta. Escrevi sobre como escolher os exames que valem a pena no texto sobre check-up.

O asterisco quer dizer fora da faixa. Doença é outra conversa.