Texto · 05 de novembro de 2026
Gordura no fígado (esteatose): o que fazer depois do laudo
“Esteatose hepática grau 1.” Muita gente chega ao consultório com essa linha do ultrassom de abdome sublinhada, às vezes com um ponto de interrogação ao lado. O exame tinha sido pedido por outro motivo, e o achado ficou sem explicação.
O que o laudo quer dizer
Esteatose é acúmulo de gordura dentro das células do fígado. É muito comum. Uma revisão publicada em 2023 na revista Hepatology, que reuniu 92 estudos populacionais, estimou que cerca de 30% dos adultos no mundo têm gordura no fígado, e a América Latina aparece entre as regiões com as taxas mais altas.
O grau que vem no ultrassom descreve quanto de gordura o aparelho enxerga. Ele não diz se o fígado está inflamado nem se já se formou cicatriz, e é a cicatriz que importa para o futuro.
O nome mudou
Em 2023, as associações internacionais de hepatologia trocaram o nome da doença. A antiga “doença hepática gordurosa não alcoólica” passou a se chamar doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, ou MASLD, pela sigla em inglês.
Junto com o nome veio uma definição nova. O diagnóstico exige gordura no fígado e pelo menos um de cinco fatores de risco cardiometabólico: excesso de peso ou de cintura, glicose alta, pressão alta, triglicérides altos ou colesterol HDL baixo. Ou seja, na maioria das vezes, a gordura no fígado é um sinal de como anda o metabolismo como um todo.
Isso tem uma consequência prática. Na mesma revisão de 2023, entre as pessoas com gordura no fígado, as mortes por doença do coração foram mais de quatro vezes mais frequentes do que as mortes por doença do fígado. Por isso, quando vejo esse laudo, olho para a pressão, a glicose e o colesterol com a mesma atenção que dou ao fígado.
Quando preocupa
O risco para o fígado vem da fibrose, a cicatriz que, com os anos, pode evoluir para cirrose. Só uma parte das pessoas com esteatose desenvolve fibrose importante, e o risco é maior em quem tem diabetes tipo 2, em quem tem obesidade junto com outros fatores metabólicos e em quem bebe acima do recomendado.
A diretriz europeia de 2024, escrita em conjunto pelas sociedades de fígado, diabetes e obesidade (EASL-EASD-EASO), recomenda começar com uma conta simples feita a partir de exames de sangue comuns: idade, duas enzimas do fígado (AST e ALT) e plaquetas. O resultado é o índice FIB-4. Se ele vier baixo, o risco de fibrose avançada é pequeno e não é preciso fazer mais nada naquele momento além de cuidar do metabolismo. Se vier intermediário ou alto, o passo seguinte é a elastografia, um exame que mede a rigidez do fígado. Biópsia hoje fica para poucos casos.
Na consulta, também confiro se há outra explicação para a gordura, como álcool, alguns remédios ou hepatites virais.
O que ajuda
Perder peso é o tratamento com mais evidência. Num estudo publicado na revista Gastroenterology em 2015, 293 pessoas com inflamação no fígado confirmada por biópsia foram acompanhadas por um ano. Entre as que perderam pelo menos 5% do peso, mais da metade teve a inflamação resolvida. Entre as que perderam 10% ou mais, a inflamação desapareceu em 90%, e 45% tiveram regressão da fibrose.
A diretriz de 2024 acrescenta mudanças na alimentação, atividade física e redução do álcool. Para quem também tem diabetes ou obesidade, alguns remédios modernos indicados para essas doenças ajudam o fígado junto. Essa decisão é individual e passa pela consulta.
Em quem tem gordura no fígado e mais de um problema metabólico, costuma valer a pena cuidar de tudo num plano único, em vez de tratar cada exame alterado por conta própria.
A linha sublinhada no ultrassom costuma dizer mais sobre o metabolismo do que sobre o fígado.